quinta-feira, 19 de maio de 2016

pecado da gula

Às vezes parece que nasci com uma fome ancestral.

Fui educada a comer tudo o que me era posto no prato. 
Em casa dos meus pais não havia desperdício de comida.
Ainda eram muito crianças, principalmente a minha mãe que nasceu em 1939, no entanto ambos guardavam algumas memórias do tempo da II Guerra Mundial. 
Nunca passaram fome mas havia a ameaça e o medo de Portugal perder o estatuto de neutralidade.
Salazar disse - "Livro-vos da guerra mas não da fome" e as restrições de alimentos com distribuição de senhas de racionamento a partir de 1943, efeitos da inflacção e da escassez de produtos alimentares, afectaram a grande maioria da população que vivia numa situação de precariedade.  
Na minha família era uma questão de educação já transmitida dos antepassados reforçada pela vivência da época e dos tempos difíceis que se prolongariam nos anos vindouros.

Muito depois, em casa, a minha mãe sempre se preocupou em dar-nos uma alimentação saudável com produtos frescos. 
Não havia o hábito de comer doces e bolos senão em ocasiões especiais e festas.
Eu própria não era apreciadora de bolos ou chocolates.
No entanto era gulosa por comida, devorava aquilo de que gostava, comia demasiada quantidade, às vezes até ficar enfartada.
Até à adolescência era magra, tinha bastante actividade física e cresci em altura mais do que a média das raparigas da época. Depois dos 15 anos, com as formas a arredondarem-se naturalmente, não me sentia segura mas as fotografias abonam em favor da minha elegância.



Quando decidi ter filhos deixei de tomar a pílula contraceptiva e simultaneamente deixei de fumar. Tive duas gravidezes muito seguidas, as minhas filhas têm apenas 19 meses de diferença, o meu corpo nunca mais foi o mesmo e engordei mais do que gostaria.

Na altura da separação e divórcio até emagreci bastante pelo stress e por ter voltado a fumar. Mau hábito que deixei definitivamente em 1998 sem me preocupar até que ponto isso influenciava o meu peso.
Desde então a minha vida deu muitas voltas e começou a fase iô-iô do engorda e emagrece.
Tornei-me apreciadora de comida, bebida e até gulosa por doces. 
O que aliado a uma vida mais sedentária provocou inexoravelmente acumulação de tecido adiposo.
Confesso que por vezes o prazer de comer era uma compensação.
Outras vezes criava em mim um conflito interno de "amor" "ódio" que não conseguia controlar e comia compulsivamente para depois me sentir horrível e culpada.

Ficar desempregada aos 48 anos também não ajudou e depois de fazer o curso de pastelaria e dedicar-me mais à doçaria foi o descalabro. Num ano e meio atingi um peso que nem quando estava grávida de nove meses vislumbrei alcançar.
É evidente que não posso culpar a comida nem os doces, apesar de saber que o açúcar é viciante.

Eu, pecadora me confesso, a tentação é grande e quando a alma está fragilizada sucumbo ao pecado da gula.

Quando finalmente me confrontei com o mal que a obesidade me estava a fazer, como começava a afectar a minha saúde, quão deprimida estava a ficar e me consciencializei que estava a entrar numa espiral destrutiva e num ciclo vicioso que só alimentava a minha desgraça, arranjei as forças, a coragem e a ajuda necessárias para reverter a situação.
Desde meados de Janeiro e durante estes quatro meses mudei a minha alimentação e a minha forma de comer, acabei com os hábitos viciosos e com os excessos.
Já consegui reduzir a massa corporal e peso agora menos 12 quilos.
Estou determinada a continuar até atingir o meu peso ideal razoável ou seja, perder mais 8 quilos.
E mais importante e difícil, manter-me nesse equilíbrio.



Tal como o doce nunca amargou, os doces e sobremesas feitos por mim continuam a ser deliciosos e comidos com moderação não fazem mal a ninguém.
Eu é que para além do que me encomendam ou faço para oferecer, tenho-me abstido de fazer experiências e provas tentadoras por isso esta página e o blog parecem abandonados nestes últimos tempos.
Além disso, para reforçar as minhas defesas contra as doces tentações mas não só, tenho-me dedicado a outras actividades muito estimulantes e prazenteiras.
Agora só falta que o bom tempo estabilize para regular as minhas caminhadas e exercícios ao ar livre, o que ajuda a atingir os objectivos de emagrecimento e também faz imensamente bem à alma.



domingo, 1 de maio de 2016

Poema e Bolo

Há muitos, muitos anos, ainda em fase de revolta rebelde intergeracional, transcrevi e ofereci este poema à minha mãe.
Para lá da intencionalidade da mensagem que na altura quis transmitir, é um belo poema.

Poema à Mãe                     Eugénio de Andrade
                                                                 em "Os amantes sem dinheiro"

No mais fundo de ti
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o coração,
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? - às vezes
ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
            Era uma vez uma princesa
            no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Mãe é mãe todos os dias, não há folgas, nem domingos ou feriados. Não há dia de mãe.
Ser mãe é muito mais que uma ocupação a tempo inteiro.
Mesmo depois dos filhos irem às suas vidas e já não dependerem da mãe, ela não o deixa de ser, de ser mãe.
Mãe é cais, é porto seguro, onde os filhos podem sempre regressar porque para ela nunca chegaram a partir completamente.
Mãe é um laço que não se desata, é um bem querer que não termina jamais.
Mãe é amor.


Bolo de limão com framboesas e mirtilos





terça-feira, 19 de abril de 2016

Doçaria Conventual em Portugal

Até 1834, ano em que foram extintas as ordens religiosas, os Conventos de freiras espalhados por todo o País confeccionavam e vendiam doces ricos em ovos e açúcar cujas receitas eram guardadas em grande segredo e até havia alguma rivalidade entre conventos que incentivava a criatividade das doceiras.

Após esta data e com o encerramento dos conventos as freiras refugiaram-se nas localidades próximas e as receitas foram sendo transmitidas às senhoras da terra por via oral e ainda em segredo. 
Assim chegaram aos nossos dias e são produzidos em pequenos negócios familiares ou em fábricas de cariz artesanal.

Só no final do século XVII surge o primeiro livro de cozinha em Portugal enquanto que o primeiro livro de doçaria só foi editado em 1788 com o título "Arte Nova para Confeiteiros".


O famoso Pão-de-Ló de Alfeizerão presume-se que tenha tido origem no Mosteiro de Santa Maria de Cós perto de Alcobaça.

No entanto só se tornou famoso em finais do século XIX quando, segundo reza a história, uma doceira menos experiente e com pressa de servir o Rei D. Carlos I que estava de passagem por Alfeizerão, retirou antecipadamente o bolo do forno deixando-o mal cozido.

Surpreendentemente aquela preparação foi tão elogiada até pelo próprio Rei que o Pão-de-Ló passou a ser confeccionado dessa forma com excelentes resultados e assim nasce uma tradição local até hoje muito apreciada.




quarta-feira, 30 de março de 2016

Receitas do caderno azul


Sinceramente não sei de onde vieram as poucas receitas que a minha mãe registou num simples caderno de capa mole forrada de papel azul forte.
Não creio que as tenha retirado de algum livro de cozinha pois não gosta sequer de os folhear. O único livro em que se fiava e por vezes consultava era o "Cozinha Tradicional Portuguesa" da Maria de Lourdes Modesto.
No entanto o caderno de capa azul é muito anterior à edição deste livro, é de quando a minha mãe começou a cozinhar, dos seus primeiros anos de casada.
Desconfio que foi apontando as receitas de um ou outro prato mais bem confeccionado por alguma empregada com mais jeito para a cozinha que tenha trabalhado lá em casa, as receitas partilhadas pelas amigas ou eventualmente pela irmã e pelas cunhadas.
Pode até ter registado receitas de algo que comeu em festas ou jantares e que tenha sido profusamente apreciado.
Não são muitas, o caderno tem bastantes folhas em branco, no entanto uma coisa é certa, todas as receitas são deliciosas.

Este pudim de côco é uma das minhas preferidas. 
Apenas substituí o leite da receita original por leite de côco para intensificar o sabor.



Pudim de Côco 

Ingredientes:
  • 100g côco ralado
  • 2,5 dl leite de côco
  • 5 gemas
  • 250g açúcar
  • 1 colher (sopa) farinha s/fermento

Preparação:

Juntar o leite de côco e o côco ralado, deixar hidratar alguns minutos, adicionar as gemas e bater até obter uma mistura homogénea mas sem adicionar muito ar.
Peneirar a farinha para outra tigela com o açúcar e misturar bem com uma vara de arames.
Juntar os secos com a mistura líquida e continuar a mexer até não sentir o açúcar.

Com uma chávena de açúcar e meia de água fazer um caramelo bem dourado e verter numa forma previamente untada. Espalhar o caramelo de modo a forrar todo o interior da forma.
Verter a massa do pudim e fechar a forma.
Cozer em banho maria num tacho com tampa cerca de 45 minutos.
Deixar arrefecer completamente mas antes de desenformar coloque a forma em cima do lume só um ou dois minutos para derreter o caramelo do fundo.
Desenformar num prato fundo.





quinta-feira, 3 de março de 2016

Cooking Class - Receitas

A comida vietnamita é de uma maneira geral simples de cozinhar com sabor e texturas variadas, saudável e feita com produtos frescos.

Como já expliquei os pormenores importantes e os procedimentos em geral aqui ficam as receitas tal como nos foram entregues com quantidades indicadas para 6 pessoas.

  • THIT LON KHO TAU - Stewed Pork wiht Caramel Sauce
Ingredients :
    • 500g pork
    • 2 TBS sugar
    • 3 TBS water
    • 1 tsp pepper
    • 1 tsp fish sauce
    • 10g spring onion
    • 200g pork rinds (skin)
    • 1 TBS chicken stock
Method :

Wash the pork carefully and then cut them coarsely.
Season the pork with pepper, chicken stock and fish sauce for about 5 minutes.
Add caramel sauce, pork rinds into sauced pork then cook them on low heat for about 1 hour.
Serve with tearm rice.




  • NEM HA NOI - Hanoi Spring Rolls
Ingredients :
    • 100g minced lean pork
    • 50g carrots
    • 100g bean sprouts
    • 150g onions
    • 10g spring onions
    • 40g vermicelli
    • 30g woodear (mushroom)
    • 2 eggs
    • 20 pc rice paper
    • 20g shallots
    • 1 tsp pepper
    • 1 tsp sugar
Method :

Chop the bean sprouts, carrot, onions, spring onions, shallots seperatly then squeeze them lightly.
Soak the mushroom, vermicelli in hot water until it became soft, drain therm and chop into small pieces.
Add all above ingredients to pork, add beaten eggs, sugar and pepper, mix them well.
Now you have done the inside of spring rolls.
Place the rice paper on dish, put 1 TBS of mixture on and roll over to have round and long pieces (2x6 cm).
Deep fry the spring rolls twice until it become well-done (yellow coloured) nice, smelty and crispy.

Dumpling sauce :

Mix 1TBS sugar, 1/2 TBS vinegar, 1 TBS fish sauce, 3 TBS water, 1 tsp chopped garlic and 1 tsp chopped chilli.



  • NOM HOA CHUOI GA - Banana Flower Salad with Chicken
Ingredients :
    • 600g banana flower
    • 300g chicken
    • 200g bean sprouts
    • 150g onions
    • 100g star-fruit
    • 150g toasted peanuts
    • 50g toasted sesames
    • 20g chopped garlic
    • 10g chopped chilli
    • 2 lemons
    • 2 bunch hot mints
      • salt, chicken stock powder, sugar, vinegar, fish sauce
Method :

Separate the lemon juice 1/2 for dressing, the rest using to soak the banana flower.
Slice the banana flower, soak in water with some lemon juice.
Slice the onion, soak in water with some vinegar.
Slice the star-fruits.
Clean the bean sprouts.
Marinate the chicken with salt, pepper, chicken stock powder, then steam it. When the chicken well-done, teart it.
Cut the hot mints into 1 cm.
Add the banana flower, onion, star-fruits, bean sprouts in another bowl, mix with dressing in a 5 minutes. 
Separate the liquid then add in the teared chicken, chilli, garlic, peanuts, sesames, hot mints and mix well.
Remove the salad to a dish, serve cool.

Salad dressing :

Mix well 1 cup lemon juice with vinegar, 1 cup sugar, 3/4 cup fish sauce.


Receitas e aula em ORCHID RESTAURANT-VIETNAMESE COOKING CLASS - Ha Noi



quarta-feira, 2 de março de 2016

Cooking Class - Cozinhar

Primeiro experimentámos o Vu Sua ou Breast-Milk Fruit e é realmente um fruto leitoso com um sabor que não sei bem descrever e ao tentar comparar com fruta mais vulgar entre nós, talvez encontre alguma semelhança com a pêra e um travo de fundo entre a amêndoa e o coco, uma delicia.
Então sim, avental posto e prontas para iniciar a aula.



Começámos por preparar a carne de porco, a marinada e o molho de caramelo porque demora 1 hora a estufar.
Não está na receita mas o chef fez o molho de caramelo com um pauzinho de canela e uma estrela de aniz.
A carne que mais utilizam é da barriga, aquilo que nós chamamos toucinho fresco ou entremeada, cortada em cubos.  
Como eu gosto da gordura para dar sabor mas não tanto de a comer sugiro uma mistura com carne de porco da perna, por exemplo, cortada da mesma forma.

O vinagre utilizado é sempre o vinagre de arroz.

Com a carne de porco já ao lume preparámos o recheio dos rolinhos, com os legumes todos cortadinhos em juliana fina, os cogumelos e a vermicelli (massa de arroz tipo aletria muito usada na ásia para fazer noodles) hidratados e também cortados em pequenos pedaços.
Juntámos a carne também cortada bastante fina, as gemas dos ovos e os temperos. 
Na receita está indicado 2 ovos batidos mas na aula o chef utilizou 3 gemas de ovos.

Depois montámos os spring rolls enrolando cada porção de recheio em papel de arroz dobrado meticulosamente e selado no fim com um pouco de clara de ovo.
O chef fritou os rolinhos uma primeira vez e deixou-os a escorrer em papel absorvente enquanto preparámos a salada.

O único ingrediente original nesta salada é a banana flower da qual só utilizámos as pétalas grandes que mais parecem folhas apesar da cor púrpura. É necessário mergulhá-las em água com sumo de limão ou vinagre para não oxidarem, ficarem castanhas e muito amargas.



A galinha é temperada e cozida ao vapor e todos os ingredientes são bem cortados.
Depois da salada temperada foi empratada pelo chef numa travessa com alguns efeitos decorativos.

O arroz branco tipo "unidos venceremos", tearm rice como eles lhe chamam, apareceu feito e o chef voltou a fritar os spring rolls desta vez até ficarem bem dourados e estaladiços.

Por fim foi posta a mesa com boa apresentação e nós almoçámos regaládamente.






Cooking Class - Ingredientes

As férias no Vietname foram espectaculares.
Nunca tinha ido para paragens asiáticas e, por muito que já se tenha visto em filmes, documentários, revistas ou livros, a realidade a envolver-nos não tem comparação.
A cultura, os hábitos, o trânsito, a arquitectura, as pessoas, os cheiros, a comida tudo aquilo a que chamamos exótico ou não, porque de certa forma há sempre coisas que nos chocam.

Pela manhã apreende-se a crua realidade de uma cidade mas é à noite que se sente o seu verdadeiro pulsar, e esta descoberta foi incrível no Vietname.

Em Hanoi a minha filha agendou uma Cooking Class de comida tradicional vietnamita que se iniciava no mercado.
O próprio chef veio buscar-nos ao hotel e logo após ela ter escolhido o menu fomos às compras.
Como estávamos hospedadas na zona velha da cidade fomos ao mais antigo e tradicional mercado o Dong Xuan Market.
Este é um mercado sobretudo de produtos frescos que segundo o chef vêm todos os dias directamente das redondezas pela mão dos próprios produtores. 
A oferta transcende o edifício principal e espalha-se pelas ruas adjacentes ocupando os passeios e organizando-se por tipos de produtos.


Conforme íamos avançando ele apresentava os produtos que não conheciamos e explicava a origem e as suas aplicações. 


Comprou um fruto estranho que se chama Vu Sua ou Breast-Milk Fruit para mais tarde degustarmos e que é de facto delicioso e diferente. 
Também fez questão que provássemos a especialidade popular Balut, um ovo fertilizado, com um embrião de pintainho, cozido e comido ainda quente apenas com um pouco de sal, gengibre e malagueta. 
Considerado afrodisíaco, um saudável e altamente proteico petisco, não nos caiu no goto... o que ainda era gema amarela estava demasiado cozida para o meu gosto, a parte da carne branca sabia a vulgar peito de frango cozido, e a parte mais escura da carne deviam ser as entranhas porque sabia desagradavelmente a fígado. 
Não seria capaz de o comer todo como eles fazem.


É um mercado onde ainda há bichos vivos para as pessoas escolherem e que são mortos e preparados ali mesmo. 
Fiquei fascinada com a quantidade e variedade de peixes vivos à venda neste mercado, já as tartarugas de casca mole com talvez um palmo e meio de tamanho. fez-me impressão vê-las a serem amanhadas. 
Também vi matarem uma galinha mas isso é igualmente prática corrente no campo em Portugal.

Por fim, com todos os ingredientes necessários, fomos para a sua cozinha aprender a confeccionar os seguintes pratos:
  • NEM HA NOI - Hanoi Spring Rolls
  • NOM HOA CHUOI GA - Banana Flower Salad with Chicken
  • THIT LON KHO TAU - Stewed Pork wiht Caramel Sauce

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O meu pai e o bolo Lucília

O meu pai era muito guloso, mesmo muito, mas é de família.
Até descobrir que tinha diabetes ia, pelo menos duas vezes por dia, à pastelaria Evian beber café e comer um Jesuíta.
Gostava de todos os bolos e doces mas tinha alguns preferidos e o Bolo Lucília era um deles. 
Não é o género de bolo que a minha mãe fizesse, o Bolo Lucília é uma receita da avó Q e das tias desse ramo da família. É um bolo elaborado e rico com vários elementos - uma massa com nozes e amêndoas, um recheio de chocolate entre as duas camadas e uma cobertura de merengue e raspas de chocolate.
É um daqueles bolos com muito boa apresentação e realmente delicioso.



Não restam dúvidas de que o meu pai era um homem de bom gosto com uma grande sensibilidade para a arte e para o belo.
Gostava de teatro, de cinema mas sobretudo de música jazz e blues, clássica erudita e ópera. Lia imenso. Adorava fotografia, chegou a ter uma câmara escura com um pequeno laboratório de revelação e ampliação e várias máquinas fotográficas tipo profissionais. 
Uma atracção e curiosidade enorme pelas novas tecnologias fazia com que comprasse por impulso as últimas utilidades lançadas no mercado e tinha um dom para escolher os mais perfeitos e originais presentes para oferecer a cada pessoa.
Era um sonhador e um idealista.
Por vezes tinha um feitio explosivo de menino mimado e uma teimosia exasperante de quem não gosta de ser posto em causa.



Faleceu mais cedo do que o previsto numa família de grande longevidade, com uma doença degenerativa do foro neurológico menos de um ano após lha terem diagnosticado.

Faz precisamente hoje 4 anos que morreu. 
Deixou um vazio nas nossas vidas, respostas a perguntas que nunca lhe fiz mas que se revelaram na sua ausência, e a saudade de um afecto desajeitado e de um amor intrincado embora incondicional.

Não sendo uma pessoa ambiciosa almejava um futuro grandioso para as suas filhas e acarinhava muitas esperanças com as netas e o neto.
Sou uma pessoa positiva motivada em honrá-lo cumprindo este meu sonho de ser feliz a fazer aquilo que gosto e que também passa por fazer os outros felizes adoçando-lhes a vida.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Tartes e Tarteletes

A minha predileção por doces em forma de tarte é flagrante.

Adoro a base de uma boa tarte, uma massa amanteigada, ligeiramente doce intensificado por uma pitada de sal, crocante que se desfaz na boca. 
Eu prefiro as massas areadas.
A base não é só o recipiente para o recheio.
É o contraste que o realça. 

O mais maravilhoso é a variedade de recheios que se podem fazer.

Cremes frescos e queijos creme combinados com fruta em polpa, em puré ou em doce.

Cremes alimonados perfeitos para tartes merengadas.

Calculo que qualquer doce de colher pode ser utilizado como recheio de uma tartelete. 
Refiro-me também à doçaria tradicional portuguesa tal como doce de ovos simples ou com frutos secos como amêndoas ou nozes. Doces de grão ou feijão como os utilizados em pastéis e azevias, doce de gila com ovos moles... 
Enfim, uma imensa diversidade de opções a explorar.

Uma das mais tradicionais e apreciadas é a tarte de maçã que faço sempre com maçã reineta cuja saborosa acidez contrasta com a massa doce.


Um destes dias resolvi adaptar a minha receita de bolo de requeijão e fazer uma requeijada em base de tarte. Ficou deliciosa.



Na primavera fiz uma série de tarteletes com recheio de creme de limão enriquecido com puré de várias frutas. Ficaram lindas e foram muito apreciadas.


No início do outono também fiz experiências com pêras.
Primeiro com um creme de amêndoa e depois com uma ganache de chocolate.

    


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Um estigma e uma catarse

Quando digo que a minha área de formação é gestão e marketing e acrescento, com pudor que agora tenho finalmente disponibilidade para me dedicar à paixão de uma vida inteira, a culinária, o que na verdade estou a dizer é que estou desempregada.

Foi assim aos 48 anos quando os novos donos da empresa onde trabalhei 18 anos, em apenas um ano a descapitalizaram utilizando-a para negócios desastrosos, engenharias financeiras e desviando todos os bens móveis e imóveis ficaram a dever a fornecedores, ao estado e a todos os empregados.
Alegando insolvência não acataram a condenação do Tribunal de Trabalho para pagar os créditos salariais e as indemnizações a todos os trabalhadores e ninguém recebeu nem um cêntimo.
Não sei nem quero saber dessa gente que voltou para o norte. 
Não sei se se safaram ou se caíram em desgraça. Ainda assim sinto uma revolta natural com a impunidade de quem age com má fé e incompetência e sei que nunca hão-de ser empresários bem sucedidos porque não tem inteligência nem integridade para tal.

Como tanta gente, tive de me adaptar a viver com menos, muito menos, no entanto até me considero sortuda porque apesar de a minha vida ter levado uma volta, tenho o apoio e a ajuda da família e boas amizades.
Felizmente as minhas queridas filhas já não dependem de mim e têm trabalho e boas perspectivas profissionais. Nada é garantido mas não vale a pena ter medo do futuro, é o que lhes digo incentivando-as a viverem intensamente.
Mesmo tentando manter uma atitude positiva o tempo passa e parece-me que tenho cada vez menos hipóteses, Sinto-me cada vez mais desenquadrada do sistema.
Quanto a emprego, não tenho ilusões, sou demasiado velha para o mercado de trabalho e  demasiado nova para a reforma. Permaneço no limbo enviando curriculuns sem obter uma resposta, uma entrevista.

No ano passado, tentando transformar a minha situação numa oportunidade decidi fazer um curso de cozinha e optei pelo curso intensivo de Pastelaria na ACPP.
Porque gostando de cozinhar, de explorar sabores com intuição e capacidade de improviso, considerei que me faltava técnica para dominar a alquimia dos doces.
O curso foi muito interessante mas ficou aquém das minhas expectativas, talvez por serem demasiado elevadas...
Ainda sonhei com cursos em prestigiadas escolas de cozinha em Paris ou Barcelona mas tive de me render à evidência de que não estavam ao meu alcance.
Tentei complementar a formação com vários estágios em locais com características diferentes mas acabei por só fazer um onde durante dois meses experienciei uma verdadeira cozinha profissional, observei a organização do espaço e dos processos, o trabalho das brigadas, a importância da equipa por trás do serviço de restauração e catering. É um trabalho árduo, pesado que se sustenta na força da juventude
Se alguma vez pensei que numa cozinha seria mais importante os conhecimentos e a experiência do que a idade enganei-me, é um meio sexista e muito competitivo.

Apesar do número de desempregados ter disparado devido à crise económica/financeira e das políticas implementadas nestes últimos anos, não obstante ser fácil sentirmo-nos vítimas do sistema há várias formas de enfrentar a situação e nenhuma é branda. 
Para mim é um embaraço, é quase uma vergonha perder o estatuto que com deveres nos dá direitos. Um estigma.
Pior do que a tristeza de perder o prestígio da utilidade é não encontrar uma solução.
O tempo passa e o acordar de manhã é demasiadas vezes vazio de objectivos.
Sobra tempo para pensar. Pensar demasiado faz-nos reféns da mente e não se pode menosprezar o poder da mente.
Não sou pessoa de me queixar e defendo-me com uma imagem de positivismo, de pragmatismo muito séptico que talvez não atraia simpatias, que certamente não inspira complacência.
Nem sempre é fácil ser forte e não mostrar as fragilidades.
Só eu conheço os meus demónios.



Atormenta-me olhar o futuro sem perspectivas.
Este projecto de "O doce nunca amargou" não levanta voo também porque não consigo estabelecer um rumo.
Por razões alheias à minha vontade mas cuja responsabilidade consciente é minha, ainda não solidificou as bases, não ganhou estrutura de negócio sustentável.
Alterno entre dias de entusiasmo e de desalento.
Alguma coisa estou a fazer mal e não são os doces que esses são deliciosos.
Além da minha pouca fé na conjuntura, sei demasiado bem como funciona o empreendedorismo neste país e o horror de dificuldades e exigências que sugam uma empresa.
Na verdade admiro quem se aventure nesta ditadura fiscal. Mas vejo, desanimada, quantos caiem e quantos de levantam.
Quando as dúvidas me invadem fantasio com alguém que acredite, que me apoie que me complemente e me ajude a levar avante esta ideia.
Há por aí alguém que se queira associar?

Num sonho muito antigo vejo-me numa quinta com uma bela horta, árvores de fruto e alguns animais de criação. 
Um espaço acolhedor onde recebo os viandantes com a hospitalidade de um povo.
Rústico e despretensioso onde quem chega se sente em casa mas com os benefícios de um hotel de charme em harmonia com a natureza envolvente.
Vejo-me cozinhando com paixão os alimentos frescos e locais, criando refeições sedutoras e equilibradas com um mimo doce para finalizar.
Há por aí algum sítio assim que me queira como anfitriã?

sábado, 31 de outubro de 2015

Sabores exóticos como viagens degustativas

Em termos de alimentação posso afirmar que a minha família é deveras conservadora. Claro que me refiro às gerações anteriores, não à actual juventude.
Não me lembro de alguma vez na minha infância comer algo que não fosse cozinha tradicional portuguesa.
Ponderar comidas mais exóticas estava fora de questão.
Naquela altura também quase não havia restaurantes étnicos ou de comida internacional em Lisboa.
Lembro-me da La Trattoria na Artilharia Um mas nunca lá fui com os meus pais, só já adulta e com outras companhias.
No entanto houve uma época em que o meu pai descobriu que gostava de comida chinesa, principalmente de umas gambas picantes, e todos os pretextos eram bons para irmos ao restaurante Hong Kong numa perpendicular à Duque de Loulé. Era um bom restaurante mas foi sofrendo transformações até desaparecer. 
A primeira vez que fui a um restaurante indiano, mais propriamente de comida goesa, foi com a minha amiga C e comi um maravilhoso caril de camarão.
Também foi com ela que experimentei comida mexicana num restaurante que já não existe, na D.Carlos I, e comida russa no Tapadinha na Calçada da Tapada.
Cada vez gosto mais de exaltar o paladar e adoro novos sabores e temperos, são autenticas viagens pelo mundo.

Inspirada pelo outono, pela estação das abóboras, fiz esta deliciosa sopa, um creme aveludado de sabor exótico.
Aprendi esta receita num daqueles programas de televisão no canal que só fala de cozinha a todas as horas.



Creme Exótico de Abóbora 

Ingredientes:
  • 1 abóbora manteiga
  • cebola
  • 1 dente de alho
  • 1 pedacinho de gengibre fresco
  • 400 ml de leite de côco
  • 100 ml a 200 ml de caldo de legumes
  • 1 colher (chá) de caril em pó
  • azeite qb
  • sal qb
  • pimenta qb
Preparação:

Cortar a abóbora ao meio longitudinalmente, retirar as sementes e os fios.
Temperar com sal, pimenta e um fio de azeite.
Levar ao forno pré-aquecido a 200º.C num recipiente com tampa durante cerca de 1 hora.
Retirar da casca a polpa da abóbora com a ajuda de uma colher e reservar,
Refogar em azeite a cebola e o alho picados grosseiramente e o gengibre bem picado em lume brando até a cebola ficar translúcida.
Juntar o pó de caril, mexer bem e adicionar a abóbora.
Juntar o leite de côco e um pouco de caldo de legumes ou água.
Deixar ferver alguns minutos.
Desligar o lume e triturar muito bem com a varinha mágica.

Notas:

A quantidade de caldo ou água adicionada depende da consistência pretendida.

Eu usei abóbora manteiga mas também pode ser feita com abóbora menina.

Aproveito sempre as sementes das abóboras. Lavo-as, espalho-as num tabuleiro envolvidas num fio de azeite e levo ao forno durante alguns minutos até tostarem ligeiramente

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Receita da Sopa de Courgette e Maçã

Graças a vários pedidos feitos pessoalmente vou partilhar a receita de sopa que preparei depois do meu passeio a Sintra.

Em casa dos meus pais sempre me lembro de a sopa ser feita num panelão enorme e era geralmente um creme de legumes com folhas verdes adicionadas no fim, espinafres, nabiças, agrião ou feijão verde. Também havia as canjas e caldo de carne que nunca apreciei muito. E as sopas de puré de grão e puré de feijão com massinhas que sempre adorei.
Quando as minhas bebés começaram a comer sopas fazia-lhes uns caldos de borrego com variação de legumes; caldos muito nutritivos que as ajudaram a crescer fortes saudáveis mas cujo cheiro me agoniava apesar de eu adorar borrego. 
Confesso que durante muitos anos não fui nada criativa na confecção de sopas, optando sempre pelas fáceis e preferidas das minhas filhas. Isto de alimentar uma família tem prioridades e nessa altura o trabalho não me deixava muitas horas livres e quando chegava a casa tinha que ser prática na cozinha para ter tempo para elas e para outros afazeres.

Sempre gostei de inventar e agora tenho tempo e não estou condicionada pelas esquisitices de ninguém. A maior parte das vezes cozinho só para mim, o que poderia ser um pouco triste mas não é porque o faço com prazer e porque me dá total liberdade para experiências que vou aperfeiçoando para partilhar assim que tenho oportunidade.




Sopa de Courgette e Maçã

Ingredientes:
  • 1 cebola média
  • 1 dente de alho
  • 1 pedacinho de gengibre fresco
  • 1 cenoura grande
  • 2 courgettes grandes
  • 2 maçãs grandes
  • azeite qb
  • sal qb
  • pimenta qb
Preparação:

Cobrir o fundo do tacho com azeite e juntar a cebola, o alho e o gengibre tudo cortado em pequenos pedaços e colocar em lume brando.
Quando a cebola ficar translúcida juntar a cenoura e as courgettes cortadas em pedacinhos.
Temperar com sal e pimenta.
Mexer e cobrir com água a ferver. 
Tapar o tacho e deixar cozer durante 10 minutos.
Adicionar as maçãs descascadas e cortadas em pequenos pedaços e deixar ferver mais 10 minutos.
Desligar o lume e triturar muito bem com a varinha mágica.

Notas:

Usei as courgettes com casca ficando o creme mais esverdeado e com pintinhas verde escuro.
Usei maçãs starking ainda verdes e com alguma acidez.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Iogurte caseiro

Actualmente são mais do que conhecidos os benefícios e propriedades do iogurte. 

Há milénios que é feito, possivelmente desde a pré-história quando se começou a utilizar o leite dos animais domesticados e o armazenavam ou transportavam de forma a sujeitá-lo a um aumento da temperatura que propiciava a fermentação bacteriana e produzia o ácido lácteo transformando o leite em iogurte.
Crê-se que teve origem no Médio Oriente e Balcãs, com o nome árabe de leben, russo de koumis ou de kefir no Cáucaso. 
É no entanto o nome de origem Turca yogurt (jugurt), o adoptado mundialmente no início do século XX quando começou a ser difundido graças a vários estudos que demonstravam o quanto o seu consumo beneficiava a saúde, como o estudo imuno-microbiológico efectuado pelo biólogo russo Ilya Ilyich Mechnikov (Carcóvia,1845 - Paris,1916) laureado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1908.
Hoje em dia é impressionante a panóplia de produtos lácteos e derivados que a industria alimentar produz.


Segundo as memórias da minha família foi no início dos anos 60 que em Portugal apareceram à venda os iogurtes Veneza, primeiro em potes de louça branca e depois, já em doses individuais, em copos de vidro gravado e com a forma de pequenas bilhas leiteiras .
Por volta de 1970 já a minha tia G produzia os seus iogurtes caseiros com a ajuda da panela de pressão. No fim da década de 70 aparecem no mercado as iogurteiras no rol dos pequenos electrodomésticos a ter na cozinha.
Já nos anos 80 surgiu a moda da flor do iogurte, Parecida com a couve flor embora de textura mole e gelatinosa, é uma espécie de cogumelo que produz o kefir, um tipo de iogurte mais liquido e com mais propriedades devido à sua dupla fermentação, ácido láctea realizada pelas bactérias probióticas e alcoólica realizada pelas leveduras benéficas que vivem em conjunto de uma forma simbiótica.

Há falta de grãos de kefir eu faço iogurte caseiro pela receita tradicional do iogurte grego.
É um processo muito simples, apenas demorado.



Primeiro aqueço 2 litros de leite do dia meio-gordo; pode-se utilizar leite gordo ou mesmo magro.
Verto o leite para uma taça de vidro com tampa e deixo arrefecer até aos 45º.C.
Então misturo muito bem 100g de iogurte que reservei da anterior produção; na primeira vez pode-se utilizar um iogurte natural de compra.
Depois fecho a taça hermeticamente, embrulho-a numa manta, e coloco dentro do forno desligado. 
Aguardo 8 horas sem abrir o forno; pode-se deixar fermentar até 10 horas mas quanto mais tempo maior a acidez do iogurte e torna-se desagradável ao paladar.
Numa tigela grande coloco um escorredor coberto com um pano de algodão onde verto o preparado. Tapo e coloco no frigorífico pelo menos por 6 horas. Deve-se mexer de vez em quando e verificar a consistência.
No fim obtenho cerca de 1 kilo de iogurte cremoso e quase 1 litro de soro de leite, Whey Protein, que também tem muitas aplicações e por isso também guardo num frasco no frigorífico.
Este iogurte caseiro, sem aditivos, saudável e muito saboroso aguenta uma semana no frigorífico.
Utilizo-o imenso nos pequenos-almoços e na confecção de alguns molhos e sobremesas.