sábado, 26 de setembro de 2015

Paris et la cuisine française


Porquê algo especial para comemorar meio século?
Tenho uma amiga que fez uma tatuagem bem colorida, várias amigas que organizaram festas de arromba. Daqui a uns dias vou a mais uma dessas festas grandiosas.
Eu sonhei partilhar uma viagem a Paris com as minhas filhotas queridas e tornar esse meu aniversário uma memória inesquecível.



Alugámos um T0 no 9º Arrondissement , perto de Montmartre, por quatro noites, e daí partíamos diariamente a pé para ver tudo.
Era Inverno mas tivemos sorte, não estava demasiado frio e quase não choveu.
Ao pequeno almoço não podiam faltar os croissants. Eu arranjava-me primeiro e ia comprá-los à boulengerie na esquina da Rue des Martyres
Só o cheirinho que emanava dos pães, croissants e patisserie diversa exposta nos balcões era uma inspiração matinal.






Apesar de ser época baixa nos sítios mais emblemáticos, Sacré-Coeur, Torre Eiffel, Notre-Dame, Museu do Louvre e Les Champs Élysées, os turistas proliferavam mas nas ruas em geral viam-se sobretudo residentes, pessoas nas suas rotinas normais de trabalho e escola dado que não era época de férias. 
A cidade pareceu-me bastante cosmopolita com muita gente sobretudo do Norte de África e Médio Oriente. 
Sem ser na Place Vendôme, onde se situam as grandes casas da alta costura, quase não vimos aqueles franceses típicos bem vestidos e elegantes.
A juventude é aparentemente igual à das cidades portuguesas e europeias, são um estéreotipo formatado pelas séries televisivas e pelas cadeias de lojas de marcas com baixo preço que proliferam iguais por todo o lado.
Não achei a cidade própriamente limpa e os jardins, por ser Fevereiro, não estavam no seu esplendor. As igrejas, principalmente as catedrais, chocaram-me pelo excessivo sentido comercial. Não é preciso pagar para entrar, como por exemplo na Sagrada Família em Barcelona, mas no seu interior existem demasiados dispositivos e máquinas que vendem velas, imagens de santos e medalhas alusivas, já para não falar no habitual balcão de souvenirs à saída, Não os senti como templos, apenas como monumentos históricos.
Em compensação, nas voltas pela cidade, encontrámos lojas de extremo bom gosto.


  


No dia dos meus anos fomos de comboio até Versailles. Começámos a visita pelos jardins porque de manhã a fila para entrar no palácio principal que eles chamam Chateau, era de muitas centenas de pessoas. 
São imensos os jardins e bosques, diferentes áreas e construções, casas e museus como o Petit e o Grand Trianon, o Domaine de Marie Antoinette, retractos retalhados da monarquia francesa no século XVII. 
Andámos quilómetros, visitámos Le Hameau de la Reine que era uma espécie de quinta e percorremos a margem do Grand Canal onde até se pode passear de barco.



Almoçámos muitíssimo bem no restaurante La Flottille situado na zona de serviços no centro do parque. Com comida tradicional bem confeccionada, de realçar o pato confitado e o crème brulée, e um serviço rápido e simpático.
De tarde entrámos finalmente no grande e luxuoso palácio de Versailles que muito me fez lembrar os nossos Palácios da Ajuda e da Pena, apenas de maiores proporções.





Para terminar em beleza um dia extraordinário, nessa noite fomos jantar a um restaurante ligeiramente mais requintado.
O vinho foi difícil de escolher por falta de referências e conhecimento dos vinhos franceses mas fizemos uma boa escolha graças ao atendimento atencioso que nos foi prestado.
Escolher os pratos e as sobremesas foi bem mais fácil e tudo se revelou um primor e uma delicadeza de sabores que fizeram render-me à cozinha francesa. Todos os pratos estavam deliciosos sobretudo a Tartelette au Citron com que me gratifiquei no final.
Não houve bolo de aniversário nem velas nem cantigas desafinadas mas fizemos um brinde especial e eu senti-me tão feliz e abençoada por ter comigo as minhas meninas, os maiores amores da minha vida.
Paris foi um sonho realizado e espero ainda cumprir mais uns quantos nos próxinos anos.



terça-feira, 22 de setembro de 2015

Tudo isto para dizer que fiz uma sopa ma-ra-vi-lho-sa

Fui visitar a minha maninha a Sintra.
Foi buscar-me à estação de comboios e levou-me numa pequena tour pelas redondezas. 
Ela mudou-se para esta vila há pouco tempo mas está totalmente cativa dos seus encantos, das suas histórias de reis e rainhas, palácios e castelos, jardins e florestas, das vielas, da serra e das praias.



Mostrou-me lugares com vista para o mar, aldeias encavalitadas na serra com ruelas estreitas onde apenas cabe um caminhante, janelas floridas em casas brancas. 
Escondidas entre a profusa vegetação mal se vislumbram palacetes e outras casas senhoriais.

Bem no centro está o milenar Palácio Nacional de Sintra que começou por ser árabe, tal como o Castelo dos Mouros, teve as primeiras obras de ampliação no reinado de D. Dinis, as maiores com D.João I e as obras de beneficiação que mais o embelezaram datam do reinado de D. Manuel I, destacando-se os revestimentos a azulejos e os elementos decorativos nas portas e janelas muito conhecidos pelo estilo manuelino.


Confesso que ali no centro da vila não resisti a ir comprar Travesseiros e Nozes à Piriquita, são uma perdição...

Na Volta do Duche vale a pena ver a nova exposição pública de esculturas cujo tema, alvitramos nós, são as rainhas.

         

Mais importante que o aprazível passeio foram as conversas que fomos tendo, assuntos de família, preocupações e projectos que partilhámos.
É bom recordar com quem nos conhece desde sempre e é curioso comparar versões diferentes de uma mesma infância e juventude. 
Para assentar ideias e aconchegar as barrigas esfomeadas procurámos uma mesa no Café Saudade para almoçar.
Logo que entrei fiquei encantada com o estilo, a decoração, o conceito daquele espaço.
Fizemos o pedido e eu escolhi a sopa que sendo sábado era de Courgette e Maçã. 
Uma combinação assim improvável deixou-me curiosa e de facto revelou-se um sabor novo e inesperado. Gostei imenso.

Gostei tanto que nos dias seguintes andei à procura de receitas nos meus livros de cozinha, onde nada encontrei no género, em blogues e sites de chefs que são referências para mim e, não tendo encontrado uma receita concreta, consegui inspiração e ir para a cozinha experimentar a confecção da minha versão da sopa-puré de Courgette e Maçã.

O resultado foi surpreendente! A sopa ficou maravilhosa!


Se pedirem muito talvez me convençam a dar a receita...

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O dia em que o mar nos ia devorando

Quando estávamos de férias na Ericeira fazíamos muitos passeios para variar dos dias de praia.
Visitávamos as redondezas, o Vimeiro, a Praia das Maças ou o Palácio da Pena que a minha avó A adorava.
Um belo dia fomos às Berlengas.



Saímos de casa bastante cedo em dois carros porque éramos um grupo de nove, dirigimo-nos a Peniche onde apanhámos o barco para visitar a ilha.
Eu tinha 7 anos, a minha irmã 5, a minha prima M e os amigos tinham entre 16 e 19 anos. Os adultos eram os meus pais e a tia G, mãe de M.

Era um lindo dia de verão. O barco estava cheio e nós íamos lá fora no convés. A viagem demorou uma hora, houve quem enjoasse e algumas pessoas deitaram "carga ao mar". Não foi o meu caso, o que até era de estranhar porque nas viagens de automóvel, sentada no banco de trás, ficava sempre agoniada.

A ilha é inóspita contudo passámos um dia maravilhoso. Passeámos a pé pelos trilhos, visitámos o Forte onde existia uma pousada, subimos ao Farol e demos uma volta num barquito com guia que nos levou a visitar as grutas e as rochas que parecem esculturas naturais com formas mais ou menos animalescas.
À tarde, já cansados de tantas caminhadas e querendo desfrutar a praia de águas transparentes e areia clara, decidimos regressar só no último barco.
Já no cais de embarque levantou-se um vento frio que nos obrigou a embrulharmo-nos nas toalhas de praia à falta de melhor agasalho. Quando subimos para o barco toda a gente foi para dentro arrepiada. Felizmente não éramos muitos, talvez metade da lotação.

O clima mudou radicalmente. O céu acinzentou-se e o mar encrespou.
No início da travessia eu ia com o nariz colado à janela espantada com o tamanho das ondas. Ainda tenho bem presente as imagens de quando estávamos na crista da onda a ver o mar lá em baixo como se estivesse no cimo de um prédio de muitos andares e logo a seguir, quando o barco descia a onda, olhar para cima e ver uma parede de água tão alta que quase não via o topo. Curiosa e destemida estava fascinada mas a minha mãe começou a antever os perigos e a desgraça e obrigou-me a ir sentar junto da família, o que me deixou, como de costume, muito contrariada.

As cores escuras do céu e do mar, a ondulação descomunal e a noção da pequenez da embarcação eram de facto, para qualquer adulto consciente, aterradoras.
O meu pai mantinha-se calado, sentado, amparando num abraço uma filha de cada lado. 
A minha mãe numa pilha de nervos não se calava, olhando para os coletes salva-vidas empilhados, perguntou ao mestre da embarcação:
- Há coletes que cheguem para todos? 
- Nem vale a pena pensar nos coletes, se o barco se virar não há salvação! - Exclamou ele - Mas entretanto no porto de Peniche já devem ter percebido a nossa situação e vêm ajudar-nos?! - Indagou cada vez mais ansiosa e em busca de um conforto. 
- Não minha senhora. Estamos por nossa conta. Se o motor não parar vamos lá chegar, agora se houver alguma avaria... - Respondeu ele muito sério abanando fatidicamente a cabeça.
E lá continuámos subindo e descendo na ondulação gigantesca. 
Ninguém entrou em pânico, todos se mantiveram agarrados aos bancos de madeira, tensos e assustados sem vestígios de enjoo ou vómito.
Ora estávamos no topo da onda como a descíamos vertiginosamente batendo no fundo para subir novamente num esforço de motor e de fé. Talvez alguém rezasse por nós.
Eu era demasiado infantil para sentir medo, nem tinha noção do que nos podia acontecer.
Quando nos aproximámos do cabo com terra à vista, a minha mãe exclamou:
- Agora ao passarmos o cabo vai melhorar! 
Mas o mestre, sempre animador, desiludiu-a: 
- Olhe que não! Com o vento nesta direcção e as correntes, vai ser muito pior!

E foi.
Nunca mais o alcançávamos mas já se via o cais, cheio de gente. Curiosos que cada vez que o barco desaparecia atrás de uma onda temiam que se tivesse afundado.
Foi assim num desespero esperançoso que finalmente nos aproximámos, as cordas foram lançadas e naquele turbilhão tempestuoso conseguiram amarrar o barco ao cais.

A minha mãe diz que foi a primeira a saltar para terra firme e ali mesmo jurou que nunca mais na vida entraria num barco e cumpriu a promessa, até hoje.

Enquanto os lívidos passageiros saiam o capitão do porto entrou de rompante, possesso, a descompor o mestre da embarcação, acusando-o de irresponsabilidade total ao sair para o mar com uma tempestade daquelas a aproximar-se.
Até tinha razão mas foi graças à mestria do mestre, experiente homem do mar, que enfrentando e superando cada onda, na posição certa, chegámos a bom porto.
Não fiquei traumatizada, adoro velejar, no entanto nunca mais apanhei uma tempestade assim.

Esta não é uma história com comida mas sim uma história onde íamos sendo devorados pelo mar.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Aniversário da minha Caranguejo preferida

O aniversário da minha mãe é uma data incontornável nas nossas vidas.
Ela é a minha Lua em Leão o que significa que gosta de ser o centro das atenções, assim nada melhor do que o seu dia de anos para ser mimada.
Qualquer comemoração tem de ser feita no próprio dia e era costume jantar fora ou, se a data calhasse ao fim de semana, fazer uma bela passeata com almoço algures.
Na época em que íamos todo o mês de Julho para o Algarve, no seu dia tinhamos jantar e espectáculo no casino de Vilamoura. Como não havia telemóveis ela ia a um telefone público ligar para a família a saber notícias mas começava a conversa dizendo _ Liguei para me darem os parabéns! _ e largava risadas de boa disposição.
Um dos jantares mais memorável foi há alguns anos no, infelizmente já encerrado, restaurante Bianca Fiori em São Bento, Lisboa. Juntamente com a comida de inspiração italiana sofisticada, serviam ópera ao vivo numa encenação informal mas emotiva dos Singing Waiters. Foi uma noite mágica sobretudo para os meus pais que sempre apreciaram a música e o canto lírico.
Nos últimos anos, desde que o meu pai já cá não está para a apaparicar, o ambiente de festa esmoreceu, até nesta data.
Porém desta vez decidiu convidar a família mais chegada e algumas amizades para uma espécie de tea party, por acaso sem chá, na sua casa.



Estava uma tarde muito quente e para refrescar fiz limonada e sumo de melão, também havia vinho e cerveja.
Optámos por servir finger food e desta vez fiz os clássicos croquetes de carne, mini queques de queijo e bacon, rolinhos de massa folhada com recheio de mistura de queijos e ainda pasta de atum em mini tostas. Também havia tacinhas com vários frutos secos para petiscar.

De doce fiz Menitos e Brownies. O bolo de anos foi mais uma Pavlova dupla com muita fruta. 
Cantámos os parabéns, soprou uma vela e brindámos com espumante. A festa decorreu conforme a minha mãezinha gosta e de acordo com os presentes tudo estava delicioso.



segunda-feira, 29 de junho de 2015

Mas tu nunca te divertes ?!

Quando acabámos o curso, já lá vão quase três décadas, cada um foi à sua vida.
Foi tempo de carreiras profissionais, casamentos e alguns divórcios, eventualmente filhos.
Houve quem mantivesse laços de amizade consistente, outros perdemos-lhes o rasto.

Em 2010, com a ajuda do facebook e cruzando listas de contactos pessoais conseguimos juntar a maior parte da turma num jantar saudosista, alguns não se viam desde 1987. 
Entretanto já se organizaram vários encontros e felizmente há quem nunca falte, eu sou uma delas.

Desta vez uma amiga simpática ofereceu a casa, outros ajuda, e eu propus-me cozinhar.

O maior desafio era escolher um menu que não me obrigasse a ficar na cozinha enquanto os outros conviviam alegremente porque desta vez eu era também conviva no evento. 
Acho que consegui e foi do agrado de todos mas naquela azáfama esqueci-me de tirar muitas fotografias.

A grande vantagem da minha organização é precisamente a dos anfitriões não se preocuparem com a preparação das refeições nem com o serviço e poderem desfrutar as suas festas.

Sentados à mesa é fácil descontrair, conversar animadamente, recordar peripécias nas aulas, professores e colegas.
Observo como não perdemos o entusiasmo e parece que o tempo não passou, ainda conseguimos ser os mesmos jovens, rir em uníssono e no fundo verifico que mantivemos a personalidade apesar dos percursos diferentes. 
Empregados ou não, empresários ou artistas, com mais ou menos reviravoltas na vida mantemos o espírito vivo embora numa fase diferente.
Apesar de nos enternecermos orgulhosamente com as actividades dos nossos rebentos, ainda gostamos de partilhar os nossos projectos mais pessoais, ainda temos sonhos por concretizar e energia para os desenvolver.
O ritmo é que é outro, sabemos o que queremos e ouso dizer, queremos viver melhor. Trabalhar para viver e não viver para trabalhar.

Valorizar o verdadeiro voluntariado das iniciativas em prol dos mais carenciados ou fragilizados é muito digno de respeito e motivador.
Ser freelancer ou artista sem ordenado garantido no final do mês pode ser aterrador mas também estimulante, e mesmo que se tenham de fazer concessões para sobreviver, a alma não está à venda.
Almas cuja inspiração e o talento merecem a sorte do reconhecimento e do sucesso.
Admiro-os muito e tenho verdadeiro apreço na nossa amizade.

Ás vezes o click pode ser uma pergunta contundente de uma criança após a apresentação do trabalho exaustivo de uma copyrighter  _  Mas tu nunca te divertes?!
Entrada :

Mini queques de bacon e queijo, queijo fresco, queijo amanteigado, tostas finas e salada de alface com aipo e maçã.







Prato :


Lombinho de porco assado com ervas aromáticas e paprika.
Batatas gratinadas.
Pimentos vermelhos fumados
Broa de milho tostada com espinafres, azeite e alho.




Sobremesa :

Pavlova de Frutos Vermelhos e Coulis de Morango






Café Nespresso 
e 
Chá Ignoramus

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Estudar, Casar e Bolos zás-trás-pás

Quando era criança e havia festas lá em casa, a minha mãe punha-nos sempre, a mim e à minha irmã, a bater as massas dos bolos. 
Parecia um castigo porque o peso da batedeira cansava os nossos bracitos e o tempo necessário parecia-nos uma eternidade. A nossa compensação era ir metendo o dedo na tigela e provando a massa, amiúde. No fim ainda deixávamos uma boa quantidade no fundo da tigela para lamber com o rapa, vulgo "salazar". 
Desconfio que a minha mãe reforçava a quantidade de ingredientes para não acabar com as formas meio vazias...
Tinha algumas, poucas, receitas que fazia sempre. Mousse de Chocolate, Pão-de-Ló, Torta de massa pão-de-ló com recheio de creme chocolate, Colchão da Noiva, Pudim de Laranja e um Pudim de Côco que quando eu era miúda não comia mas que mais tarde, muito mais tarde, descobri que é uma maravilha.
Era raro fazer os pudins porque nem sempre saíam bem, desmanchavam-se muito por isso preferia fazer o tipo de bolos muito simples, muito zás-trás-pás.
Mesmo o Colchão da Noiva que exige mais paciência e jeito para montar e dar o acabamento na cobertura, desde muito cedo me incumbiu de o fazer.
Super responsável, fazia as coisas porque tinham de ser feitas. Muito mais exigente na higiene da casa e das roupas, na cozinha sempre se preocupou mais com a qualidade dos produtos, na forma simples e saudável de os preparar e na abundância e variedade das refeições.
Ainda hoje, se o assunto vem à baila queixa-se de não ter tido oportunidade de estudar mais, das dificuldades económicas e das mentalidades da época e das várias condicionantes adversas que lhe coarctaram as hipóteses de realização pessoal e profissional. Compreendo que não tenha alcançado o seu ideal mas após ter deixado a escola quando fez a 4ª.classe, tanto pediu, tanto insistiu que o meu avô anuiu e aos 16 anos conseguiu num ano, com aulas particulares, preparar-se para o exame do 2º.ano e dois anos depois concluir, sozinha, os exames do antigo 5º.ano dos liceus. Atenção que isto foi em 1957. 
Como as suas piores notas foram nas provas orais de francês e inglês começou a frequentar o Instituto Francês e o Instituto Britânico e aprendeu as duas línguas com uma excelente pronúncia semelhante aos nativos.
Depois casou, como era suposto na época, mas ser uma dona de casa prendada não era de todo o seu estilo.
Assim que nós começámos a ir para o Jardim Escola, tinha eu 5 anos, começou a procurar emprego.



Entre outros, respondeu, conforme se fazia na época, por carta dirigida ao jornal com a referência publicada, a um anúncio que pedia secretária fluente em francês e inglês. Ficou toda contente quando a chamaram para uma entrevista e imediatamente em pânico quando soube que era na Rua António Maria Cardoso, nas instalações da Direcção Geral de Segurança (ex-PIDE). Suficientemente politizada para não querer trabalhar em tal organismo a hipótese de não comparecer ou de recusar o emprego estava fora de causa dado que se tratava da polícia política e correria o risco de se tornar suspeita e perseguida.
Enquanto percorria aqueles corredores labirínticos por onde era encaminhada, enquanto esperava numa sala sozinha com a nítida impressão de estar a ser observada, dominou o medo e decidiu fazer-se de parva, mesmo estúpida, durante toda a entrevista e foi assim que conseguiu não ser seleccionada.
Depois arranjou emprego em firmas idóneas e quando o meu avô J morreu, a avó A foi viver lá para casa exercendo o domínio da cozinha.
Poucos anos mais tarde iniciou, juntamente com o meu pai, uma empresa que foi crescendo com muito trabalho, investimento e dedicação. Mais um motivo para delegar quase todas as tarefas na cozinha.
Não teve a carreira profissional gloriosa com que sempre sonhou mas alcançou outros méritos, tem uma bela família e duas filhas, três netas e um neto e ainda pode vir a ter bisnetos... 
Agora fica rejubilante quando nos consegue reunir a todos lá em casa e prepara carinhosamente os pratos preferidos da sua prole - as mãozinhas de borrego assadas ou o rosbife grelhado no forno acompanhado de abundante molho de natas e cogumelos.
Para não serem sempre os mesmos zás-trás-pás, pede-me sempre para eu fazer e levar os bolos e as sobremesas.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Competições parvas e gargalhadas cúmplices

Eu e a minha irmã temos menos de 2 anos de diferença e, como é natural na infância, tínhamos muitos despiques _ Primeiras! _ Este lugar é meu! _ Eu escolhi primeiro!
Nas nossas brincadeiras e fantasias de crianças entendiamo-nos muito bem mas de resto competíamos por tudo e mais alguma coisa, o pão mais mal cozido, os croquetes mais douradinhos ou a torrada mais apetitosa...
Geralmente acabava em simples brigas de irmãs que não duravam nada mas às vezes eramos exasperantes e punham-nos de castigo com ralhetes e alguma palmada assertiva.
Certo dia ao almoço, quando veio para a mesa uma travessa cheia de linguados fritos começámos a disputar um linguado que por acaso tinha ficado com a parte mais clara virada para cima. Apesar de sabermos perfeitamente que todos os linguados tem um lado de pele escura e outro de pele branca, deu-nos para aquela parvoíce.
Enquanto comíamos a sopa apontávamos e afirmávamos _Este é para mim! e logo a outra metia o dedo e ripostava _ Não, não, este é para mim! Ao fim de várias vezes e já sob aviso impaciente dos nossos pais, ela pôs o dedo no cobiçado linguado e eu afastei a sua mão com um gesto mais brusco e para nosso espanto, vários linguados voaram para fora da travessa.
O ambiente ficou tenso. 
O sermão fez-se ouvir e baixando os olhos continuámos a comer a sopa e a tentar controlar a vontade de rir de tal forma exorbitante que quando os nossos olhares se cruzaram não nos conseguimos conter e soltámos o riso e a sopa que saiu projectada borrifando tudo à nossa volta. 
Foi o descalabro. 
Dominadas pelas gargalhadas nervosas nem vimos chegar o par de bofetadas e torcendo-nos com a risota incontrolável fomos expulsas da mesa e corremos para o nosso quarto a rir até não poder mais.
Graças à intervenção da avó A, depois de eles acabarem de comer, lá tivemos autorização de ir almoçar. E os linguados estavam todos deliciosos, claros e escuros.
Durante dias rimos desta cena hilariante e ainda hoje, quando a partilhamos, é motivo de risota porque a conseguimos reviver emocionalmente.



segunda-feira, 11 de maio de 2015

Horta e árvores de fruto - marmelada, geleias e doces

Há alguns anos os meus tios foram viver para uma aldeia na beira da serra, onde o tio Z empresário inveterado trabalha, apesar dos seus 87 anos.
Com terrenos disponíveis para explorar criaram um pequeno pomar com várias árvores de frutos. Os meus preferidos são as cerejas, os figos e os alperces.
Ainda pensaram plantar um olival mas o preço da mão de obra na apanha das azeitonas não compensava numa pequena produção artesanal e desmotivou-os. Têm apenas duas oliveiras e apanham as azeitonas para petiscar bem temperadas.



Também já criaram porcos mas juraram para nunca mais. Deu muito trabalho, despesa e sujeira.
Agora só têm galinhas e patos.



Os patos vivem felizes num lago enorme, as galinhas estão numa boa capoeira.
As galinhas dão ovos e de vez em quando lá vai uma parar à panela. Os patos também e a minha tia G faz o melhor arroz de pato na opinião de toda a família.
Nesta altura do ano é quando elas põem mais ovos, tantos que para os aproveitar andamos a fazer bolos de empreitada para congelar. Fiquem sabendo que há muitos bolos que não perdem nada, antes pelo contrário, ao serem congelados. 
Em redor da casa há rosas, hortênsias, muitas flores e ainda uma horta onde tudo tem um sabor incomparável aos produtos comprados. Até custa a acreditar como a salsa, a hortelã e os coentros, por exemplo, têm uma fantástica intensidade de cheiro e sabor quando são colhidos, já para não falar nos grelos, couves, tomates, enfim tudo o que a terra dá. Só quem tem a sorte de ter acesso directo a estes produtos sabe a real diferença.



Também têm marmeleiros, um fruto que fresco não é muito apreciado portanto é práticamente todo convertido em geleia de marmelo e marmelada.
Aliás, sazonalmente é preciso converter grande parte da fruta em doces e compotas, secar figos e pendurar cachos de uvas para fazer passas.



A tia G também costuma fazer doce de tomate, que eu adoro. Ainda me lembro de umas gravações de som em bobines de fita que o meu pai fez na minha infância e ouvir enternecida a minha vozinha dizer _ Maía do Xéu, qué doxinho encanado. _ quando tinha 2 anos eu falava axim...
No inverno, quando apanhamos laranjas com casca mais grossa aproveitamos para a cristalizar em tirinhas que depois se guardam no congelador para não secarem. Servem para o bolo inglês, bolo rei e também para devorar distraidamente...
Tenho de lhes pedir para voltarem a semear abóbora gila para fazermos doce muito melhor do que há por aí à venda. É difícil encontrar algum que não seja demasiado líquido e com os fios característicos da gila e isso reflecte-se na qualidade dos doces e bolos conventuais que se preparam com este doce.
Há imensos pinheiros bravos porém só havia um pinheiro manso perto da casa mas no ano passado teve de ser cortado porque estava tão grande, tão grande que as suas raízes já ameaçavam causar sérios danos nas construções. Acabou-se assim a árdua tarefa de colher e extrair o miolo dos pinhões.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Memórias culinárias da infância - fricassé e tortas

Para mim, o prato emblemático da minha tia G, irmã da minha mãe, é, desde que eu era criança até aos dias de hoje, o frango de fricassé.
Mas seria redutor não referir os imensos predicados culinários da tia G. 
Só depois de casar é que pôde dedicar-se a cozinhar porque em casa da mãe, a minha avó A, não tinha hipótese de experimentar receitas.
Dona de casa prendada, logo procurou aprender com a experiência da sogra e sobretudo das cunhadas. 
A tia L, irmã do meu pai e mais tarde minha madrinha, ofereceu-lhe em 1959 a 22ª.edição de O Livro de Pantagruel , uma colectânea inédita na época de receitas tradicionais de todo mundo e uma preciosa ajuda para as cozinheiras amadoras. Creio que naquele tempo talvez se possa comparar a importância deste livro cá em Portugal, com a "bíblia" da gastronomia americana, Mastering the Art of French Cooking, compilado pela famosa Julia Child.
Mais tarde coleccionava as Teleculinárias do Chef Silva e foi assim que ao longo do tempo foi aprimorando e diversificando os pratos que servia à família.



É importante esclarecer que a tia G e a minha mãe têm uma diferença de 9 anos e quando casou aproximou as duas famílias mas ninguém previu que 10 anos mais tarde a minha mãe acabaria por casar com o irmão mais novo do tio Z. 
Este facto de duas irmãs terem casado com dois irmãos proporcionou que se formasse um núcleo familiar muito forte. Por exemplo, no Natal sempre me lembro das festas na casa da minha avó paterna onde todos se reuniam e nunca senti aquela pressão muito comum de ter me dividir entre duas famílias, a do pai e a da mãe.
Também passávamos férias juntos, as inolvidáveis férias na Ericeira e mais tarde no Algarve.
Quando era criança passava imenso tempo com ela na sua casa, em passeios ou nas pequenas mas regulares visitas aos negócios do tio Z na beira da serra.
Muito dedicada e atenciosa, cozinha para agradar aos seus e exemplo disso é a Torta do P que criou para agradar ao neto, inspirada nos Guardanapos, único bolo que ele comia nas pastelarias.



terça-feira, 28 de abril de 2015

Ballet e sobremesas delicadas

Anna Pavlova, bailarina russa famosa que fez uma turné pela Austrália e Nova Zelândia nos anos 20 do século passado, inspirou nessa ocasião a criação uma sobremesa leve e fresca, captando a sua graciosidade no ballet.



Na sua biografia aparece uma referência ao chef de um hotel em Wellington, Nova Zelândia, como criador de um bolo quando a bailarina ali se hospedou em 1926 durante a sua turné, mas talvez não tenha sido a sobremesa que hoje conhecemos como Pavlova pois de acordo com alguns registos esta era uma gelatina rosada,
Helen Leach, antropóloga gastronómica que compilou recentemente um livro com 667 receitas de pavlovas, refere que a primeira receita que reúne tanto os ingredientes como o nome, foi encontrada na revista rural New Zealand Rural Magazine de 1929.
Apesar de na Austrália a primeira publicação de uma receita do bolo Pavlova remontar apenas a 1935, os australianos continuam a reclamar a sua autoria e foi o chef Bert Sachse do Esplanade Hotel em Perth que desenvolveu a sua receita e a divulgou tornando o bolo Pavlova conhecido mundialmente.
Controvérsias à parte, um facto é que é uma sobremesa muito popular e importante em ambos os países onde actualmente é conhecida pelo diminutivo afectuoso de Pav.


Só há alguns anos descobri este bolo, por acaso, num programa televisivo australiano, e fui logo pesquisar receitas e métodos de confecção porque me pareceu deveras delicioso.
Ao contrário das freiras que usavam as claras dos ovos para engomar os hábitos e criaram a doçaria conventual precisamente para aproveitar as gemas que sobravam, as doçeiras de hoje ao fazer a maior parte dos doces tradicionais da pastelaria portuguesa precisam de arranjar alternativas aos Pudins de Claras, Molotofs e Farófias para bem aproveitar as claras sobejantes.
O Suspiros são uma boa alternativa, os Merengues nas Tartes e mesmos os Marshmallows também mas as Pavlovas são excelentes e ainda possibilitam ser criativa e experimentar muitos sabores nas coberturas.
A mais tradicional é com natas batidas e frutos vermelhos,



Nesta usei as gemas dos ovos para fazer uma cobertura de Doce de Ovos com Pralina de amêndoas e nozes.



Desta vez utilizei iogurte grego em vez de natas batidas e cobri com uma salada de frutas tropicais. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Quartos de século, filhas e bolos

O meu primeiro quarto de século foi de crescimento, formação e aventuras. Não tantas como eu gostaria de ter tido...

Há 25 anos nasceu a minha primogénita.
A filha que me transformou em mãe e mudou o sentido da minha vida com todo o encanto, a responsabilidade e a dedicação essencial.
Com a maternidade vem a descoberta de um amor incondicional criador de laços impossíveis de desatar. A importância  de um caminho feito de tantos passos em que a prioridade foi projectar as filhas para a vida, para a liberdade com coragem e confiança, determinação e personalidade. 
O primeiro dela corresponde ao meu segundo quarto de século.

Curiosamente foi antes de ela nascer, durante a gravidez, que eu me dediquei á confecção de bolos que vendia a alguns restaurantes em Lisboa e na linha de Cascais.
Foi por acaso que comecei mas o que principiou por ser um desafio, uma provocação graciosa, tornou-se numa actividade intensa.
Não vendia a muitos restaurantes mas alguns tornaram-se clientes regulares e exigentes. Não tinha mãos a medir e às vezes precisava mesmo de pedir ajuda, mas todos os dias de manhã lá ía eu no meu carro fazer entregas, eu e a minha barriguita que ía crescendo a olhos vistos, qual bolinho no forno.
Ali para os lados do Jardim Constantino havia um restaurante do qual não me lembro o nome, que após experimentar vários bolos passou a encomendar-me sobretudo bolos Floresta Negra. Eu fazia a receita da tia A que a trouxe de Inglaterra onde viveu alguns anos. Além de ser excelente, cá era bastante original e talvez por isso este restaurante o tornou a sobremesa fatiada mais servida, e tinha imensa saída!

O Dom Pepe, na Parede só queria doces conventuais, era um ror de Trouxas de Ovos, Morgados, Fidalgos, Doce de Ovos e até Fatias de Tomar (há quem lhes chame da China o que desagrada sobre maneira os Tomarenses). Lá recorri eu uma vez mais à tia A que me emprestou uma panela especial feita em Tomar, engenhoso utensílio no qual se introduz a forma oval e abaulada, com as gemas batidos para serem cozidas em banho-maria. A referida panela tinha uma espécie de chaminé afunilada pela qual se acrescentava água a ferver de modo a manter durante toda a cozedura, cerca de uma hora, a forma totalmente mergulhada.

Era uma lufa-lufa que durou até à véspera do dia em que a minha filha nasceu. 
Depois não tive mais disponibilidade até porque passados dezanove meses tive outra menina e optei por um trabalho na minha área da formação e de horário mais compatível com a família. Os bolos e outros cozinhados foram sendo feitos apenas para os de casa ou para festas e reuniões familiares ou de amigos.



Agora, orgulhosa das minhas filhas já criadas e independentes, início um novo quarto de século com toda a disponibilidade e motivação para me dedicar à culinária, sobretudo pastelaria e doçaria.



terça-feira, 24 de março de 2015

Lemon and Fresh Fruit Curd Tartlets

Ideias nunca me faltaram.
Umas mais loucas que outras, umas fantasiosas, outras banais.
Algumas deram-me boas oportunidades e resolveram problemas ou desafios.
Por uma razão ou outra, a maior parte ficou arquivada ou esquecida na minha cabeça.
Durante muitos anos não assumi a criatividade na cozinha, em vez de dizer _ criei este prato, dizia _ fiz isto à minha maneira. 
É verdade que as minhas versões sempre foram bastante apreciadas, e meu toque geralmente melhorava as receitas.
A criatividade também se revela numa forma diferente de fazer, um método também pode ser inovador.
O que mais gosto na cozinha é a magia da mistura dos ingredientes, as combinações possíveis ou improváveis. Por vezes é subjectivo o conceito de combinações perfeitas mas o resultado pode ser surpreendente.
Essencial é dominar as técnicas e conseguir imaginar junções de sabores e cheiros.
Também é preciso sorte e perseverança porque nem sempre se obtém os melhores resultados à primeira.
A meu ver, nos salgados há mais margem para o improviso e nos doces tem de haver mais rigor.
Ao fim de imensas experiências consegui fazer a massa perfeita para tartes e tarteletes doces. Para o recheio juntei um creme de limão com polpa de fruta fresca. E para finalizar decorei com merengue italiano queimado.
Assim, apresento a minha Colecção Primavera 2015.

Tarteletes de Creme de Limão e Fruta Fresca
Clementina
Mirtilo
Manga
Morango